07 outubro 2012

[crônica] Azia

O despertador do vizinho era tão bom que eu podia ouvi-lo mesmo havendo uma distância de mais ou menos 8 metros e 3 paredes no meio. Ele tocava exatamente às 5:05 da ma-nhã. Nun-ca descobri o que meu vizinho fazia a essa hora, estava ocupado de-ma-is imaginando di-ver-sos modos de invadir a casa dele e dar um sumiço no maldito despertador.
Na-da mais restava além de levantar e fazer meu café.
For-te, a-mar-go.
Pouca gente gostava do meu café. Pouca gente gostava de mim. Procurava não me importar. Mas no fundo é cla-ro que me importava. E estou aqui, escrevendo e imaginando que minha voz seja igual a do Wagner Moura. Sabe quando ele narra os pensamentos em algum filme e faz a-que-las pausas na leitura? Pois é, estou escrevendo e len-do assim. A voz do Wagner Moura e a aparência dele. Por que não? Então me faz o favor de ler com a voz do Wagner Moura na sua cabeça. Talvez melhore a qualidade dessa crônica.
Pensei aqui em infinitas profissões que poderiam fazer você ter pe-na de mim, mas não consegui escolher uma. Então digamos que eu passe a manhã numa mesa, vários papéis em cima e um chefe barrigudo que solta piadas escrotas e paga meu salário atrasado. Imagine tu-do isso em câmera lenta.
A mesa velha, papéis caindo ao chão, mos-cas na careca do meu chefe, o botão de-sa-bo-to-a-do jus-ta-men-te no umbigo dele, o ven-ti-la-dor de teto que quase não gira e o sol fer-ven-do lá fora.
Agora volte a realidade comigo, há uma velha cafeteira na sala. Meu único conforto ali.
O café não é forte e nem amargo. Não tenho grana pra manter café forte e amargo em dois lugares.
Da janela dá pra ouvir o trânsito caótico lá fora. Há um pano velho na janela e isso me faz lembrar Bernardo Soares. Pouca gente sabe quem é Bernardo Soares. Pouca gente sabe quem sou.
A hora do almoço não tem na-da de sa-gra-da na minha vida. Se eu tiver grana pra coxinha já vai ser algo maravilhoso.
Vez ou outra encontro algum amigo. Eu pago o café, ele os cigarros. Conversamos qualquer coisa pra encher a barriga de vento e logo o vento nos leva pra qualquer outro lugar. Pro-va-vel-men-te o segundo emprego. E tal-vez seja por isso o alto índice de desemprego em to-dos os lugares.
Há uma certa melhora. A cafeteira é mais moderna e só preciso me servir. O café es-tá sem-pre lá. 
For-te e doce.
Maria João diz: "De amargo já basta a vida, meu filho".
Du-as se-ma-nas de-po-is d. Maria João descobre que tem diabetes. O café continua forte, mas a-go-ra com Adocil. Perguntei a Maria José por que não usava Zero Cal (kal?) e ela respondeu que não gostava do Zé Wilker.
Eu tam-bém não gostava dele. Ah, A-que-les ó-cu-los coloridos durante as premiações do Oskar me irritavam ma-is que os comentários absurdos dele.
Prefiro Zé de Abreu, mas não sei dizer os motivos.
Todo mundo tem o seu Zé.
Só não desejo o Zé Pequeno pra nin-guém.
Minha cabeça a essas horas es-tá cheia de café, cálculos e ca-ra-mi-nho-las. Meu estômago distribui pon-ta-das e ao caminhar na rua imagino que a qual-quer ins-tan-te um filhotinho meigo de Alien vá sair pela minha barriga.
Ao sair do trabalho, um copinho de café na mão e o notebook nas costas, vou pra casa. Dobro a esquina e sou assaltado, es-fa-qui-a-do 23 vezes porque o cara havia assistido esse filme idiota e faltado todas as aulas de matemática do en-si-no fun-da-men-tal.
O café vaza pelo meu corpo. A população inteira da cidade chega até mim, menos o SAMU.
Men-ti-ra.
Na-da disso aconteceu.
Queria apenas deixar essa crítica ao SAMU, pois vale o mesmo que a Madonna condenar algo relacionado as Pussy Riot.
Começo a achar que Elton John tem razão sobre o que anda falando sobre ela.
A crônica termina por aqui. O cachê para a voz do Wagner Moura na cabeça não permite mais carácteres.
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Olá, olá.
O Good Times está de volta, mas ainda estamos de mudança. Eu e Nathy  temos ótimos planos e posts e zaz! Então paciência, gafanhotos!

Um comentário:

Julhy Van Den Berg disse...

Me arrancou risadas. Parabéns!