15 janeiro 2013

Salve o puto!

Uma professora só.
Uma andorinha só.
E nenhuma das duas
consegue fazer verão.

E muitos verão
Que fora dos livros.
É que habita o saber
De boa qualidade.

E de verdade
ninguem consegue viver
E de mentira
não dá pra ensinar.

Somente graças aos livros
podemos atravessar o mar
sem precisar pagar
Aquele puto que não há.

06 janeiro 2013

tout va bien

Jack, 
quebre as economias do porco e bota a mochila nas costas. É isso, irmão. 
Esse ano tá sendo uma loucura, cheio de lágrimas, de bolsos vazios, de amigos distantes, de línguas diferentes, de longas caminhadas sozinho. Mas eu experimentei uma cerveja belga na Bélgica, cara (comprei uma pra você, mas... enfim, te conto pessoalmente), e fui naquele café francês, do filme francês que você adora, aquele com a personagem do cabelo curto, não me lembro o nome agora.
Passei um bocado de frio também, Jack, mas eu digo um frio-não-físico. Digo o frio de enfrentar um monte de coisas pela primeira vez, e na droga da companhia de mim mesmo.
Mas deu certo, isso eu te digo, deu certo.
Molhei o último postal que ia te mandar, e, pasme, essa carta é a maneira mais fácil pra mim de me comunicar, vendi o celular (depois me lembre de te contar dessa história também!).
Meu trem sai daqui a 10 minutos e eu tenho que me despedir agora. Ouvi falar que esse trem passa ao lado de uma estradazinha, no meio dessas florestas que a gente só vê em filme, acho que vai ser uma viagem bonita, vou tirar umas fotos pra você.
Me espera daqui a um mês, naquela esquina que tem o boteco do seu João, certo? Devo chegar no final da tarde. Vamos ver o pôr do sol.



Sal.


"Continuei, como fiz toda a minha vida, quando as pessoas se interessam por mim.

As únicas pessoas que se interessam por mim são os loucos.
Os que têm loucura de viver, a loucura de falar. Os que desejam tudo a um só tempo.
Quem jamais é tedioso, nem diz trivialidades.
Mas que arde, 
arde, 
arde 
como velas romanas pelas noites."
(On the Road)

26 dezembro 2012

Admirável Mundo Novo

Eu respirava tão fundo e bem lentamente. Desejava que meu pulmão sentisse aquele novo mundo que estava conhecendo. Tocava tudo com todo o cuidado, sentindo cada partícula, imaginando como teria sido todo o processo de criação. As folhas tinham um tom diferente. A vida pulsava delas. De todas elas que estavam no pequeno bosque. Podia ouvi-las também. A Terra é a nossa mãe. O vento é a nossa vida.
Não sentia apenas o calor humano, eu os via sair através de sua pele, via pra onde iam, via suas cores, sentia seus cheiros. Alguns lembravam infância e era ali que eu mais gostava de ficar. Cheiro de tangerina, de terra molhada, de leite com bolacha, de chá de hortelã. As cores eram lindas, lindas. Os cheiros muito agradáveis. O mundo estava ali pra mim, como sempre estivera. Mas o terceiro olho só fora aberto no meu aniversário. Um presente. Um dos melhores presentes.
Entender como cada peça realmente tinha o seu lugar, que tudo era apenas questão de tempo. Ver que o essencial é respirar, fechar os olhos, sentir o calor e deixar que ele guie. Nesse dia tive as melhores surpresas, as melhores sensações, os melhores abraços. Amei o mundo. Toda a tristeza fora expurgada ao abrir o terceiro olho. Poderia voar se quisesse. Eu poderia estar voando e nem perceberia. Estava leve, sem preocupações, sem pensamentos. Eu apenas sentia. Apenas amava.
Sendo algo totalmente desprovido de físico. Não era meu corpo que amava e sim meu espírito. Deixei que pelo menos naquele dia ele me guiasse. Respirar era a única coisa que eu tentava lembrar de fazer. Respirar era algo muito bom. Sentir o ar entrando, preenchendo tudo, clareando pensamentos.
A mesma sensação por mais de oito horas seguidas. O efeito nas luzes, a energia das pessoas, das flores, arbustos, trepadeiras-elefante, os sons. Tudo era novo. Por muitas vezes cheguei a pensar que aquele corpo não era meu. Que meu espírito poderia muito bem viver livre.
Nos dias seguintes tive de voltar aos poucos para meu corpo e até ele estava mais leve, mais puro. Ao abrir o terceiro olho ele havia sido purificado. Era tão cansativo voltar. Era cansativo aquela rotina. Mas sentir a vida pulsar não existia nada que pudesse comparar.
Essa paz que me preenche e protege. Esse tipo de paz você só tem quando se entrega. E essa paz emana de mim para quem esteja por perto.
Por todo esse ano eu buscava ânimo, quando só precisava dessa paz. Depois disso o caminho parece mais fácil, os amigos passam mais tempo presentes. Nossos caminhos permanecem lado a lado, encruzilhados, enrolados, embolados e pouco me importo com isso.
Eu só respiro, mas não respiro só.



Informações adicionais: o título desse post refere-se ao livro homônimo de Aldous Huxley, clique aqui para mais informações. Leia e assista ao filme. Merci

07 outubro 2012

[crônica] Azia

O despertador do vizinho era tão bom que eu podia ouvi-lo mesmo havendo uma distância de mais ou menos 8 metros e 3 paredes no meio. Ele tocava exatamente às 5:05 da ma-nhã. Nun-ca descobri o que meu vizinho fazia a essa hora, estava ocupado de-ma-is imaginando di-ver-sos modos de invadir a casa dele e dar um sumiço no maldito despertador.
Na-da mais restava além de levantar e fazer meu café.
For-te, a-mar-go.
Pouca gente gostava do meu café. Pouca gente gostava de mim. Procurava não me importar. Mas no fundo é cla-ro que me importava. E estou aqui, escrevendo e imaginando que minha voz seja igual a do Wagner Moura. Sabe quando ele narra os pensamentos em algum filme e faz a-que-las pausas na leitura? Pois é, estou escrevendo e len-do assim. A voz do Wagner Moura e a aparência dele. Por que não? Então me faz o favor de ler com a voz do Wagner Moura na sua cabeça. Talvez melhore a qualidade dessa crônica.
Pensei aqui em infinitas profissões que poderiam fazer você ter pe-na de mim, mas não consegui escolher uma. Então digamos que eu passe a manhã numa mesa, vários papéis em cima e um chefe barrigudo que solta piadas escrotas e paga meu salário atrasado. Imagine tu-do isso em câmera lenta.
A mesa velha, papéis caindo ao chão, mos-cas na careca do meu chefe, o botão de-sa-bo-to-a-do jus-ta-men-te no umbigo dele, o ven-ti-la-dor de teto que quase não gira e o sol fer-ven-do lá fora.
Agora volte a realidade comigo, há uma velha cafeteira na sala. Meu único conforto ali.
O café não é forte e nem amargo. Não tenho grana pra manter café forte e amargo em dois lugares.
Da janela dá pra ouvir o trânsito caótico lá fora. Há um pano velho na janela e isso me faz lembrar Bernardo Soares. Pouca gente sabe quem é Bernardo Soares. Pouca gente sabe quem sou.
A hora do almoço não tem na-da de sa-gra-da na minha vida. Se eu tiver grana pra coxinha já vai ser algo maravilhoso.
Vez ou outra encontro algum amigo. Eu pago o café, ele os cigarros. Conversamos qualquer coisa pra encher a barriga de vento e logo o vento nos leva pra qualquer outro lugar. Pro-va-vel-men-te o segundo emprego. E tal-vez seja por isso o alto índice de desemprego em to-dos os lugares.
Há uma certa melhora. A cafeteira é mais moderna e só preciso me servir. O café es-tá sem-pre lá. 
For-te e doce.
Maria João diz: "De amargo já basta a vida, meu filho".
Du-as se-ma-nas de-po-is d. Maria João descobre que tem diabetes. O café continua forte, mas a-go-ra com Adocil. Perguntei a Maria José por que não usava Zero Cal (kal?) e ela respondeu que não gostava do Zé Wilker.
Eu tam-bém não gostava dele. Ah, A-que-les ó-cu-los coloridos durante as premiações do Oskar me irritavam ma-is que os comentários absurdos dele.
Prefiro Zé de Abreu, mas não sei dizer os motivos.
Todo mundo tem o seu Zé.
Só não desejo o Zé Pequeno pra nin-guém.
Minha cabeça a essas horas es-tá cheia de café, cálculos e ca-ra-mi-nho-las. Meu estômago distribui pon-ta-das e ao caminhar na rua imagino que a qual-quer ins-tan-te um filhotinho meigo de Alien vá sair pela minha barriga.
Ao sair do trabalho, um copinho de café na mão e o notebook nas costas, vou pra casa. Dobro a esquina e sou assaltado, es-fa-qui-a-do 23 vezes porque o cara havia assistido esse filme idiota e faltado todas as aulas de matemática do en-si-no fun-da-men-tal.
O café vaza pelo meu corpo. A população inteira da cidade chega até mim, menos o SAMU.
Men-ti-ra.
Na-da disso aconteceu.
Queria apenas deixar essa crítica ao SAMU, pois vale o mesmo que a Madonna condenar algo relacionado as Pussy Riot.
Começo a achar que Elton John tem razão sobre o que anda falando sobre ela.
A crônica termina por aqui. O cachê para a voz do Wagner Moura na cabeça não permite mais carácteres.
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Olá, olá.
O Good Times está de volta, mas ainda estamos de mudança. Eu e Nathy  temos ótimos planos e posts e zaz! Então paciência, gafanhotos!

15 agosto 2012

Our time para se renovar.


A nota de reforma do blog chegou (com quatro meses de atraso mas chegou).
A boa notícia é que estamos trabalhando pra limpar as teias de aranha daqui o mais rápido possível.

Em breve novidades.

09 abril 2012

Ve.me.dar Amor

A vontade que bate sempre naquelas horas em que o sol alcança determinado ângulo que lembra teu sorriso, essa vontade de ver teus olhos fechando-se ao formar aquele sorriso que é único pra cada um, o abraço de lado, com tua cabeça no meu ombro e assim o peso do mundo se esvai. E assim eu tenho paz. Só assim eu tenho paz.
A estrela cadente corta o céu, nossos dedos, olhos e corações voltados a ela e meu único desejo é sempre que aquele momento se repetisse tantas vezes quanto fosse possível. Podia ser impressão ou não, mas ali, naquelas madrugadas frias, nossos corações tinham um som só. E o só não existia entre a gente.
Agora eu fico aqui, debaixo dessa árvore sozinha. Lembrando do teu sorriso, dos teus olhos que agora devem estar marejados, tão cheios de lágrimas quanto os meus, e seu nariz deve estar com a ponta vermelha e então um sorriso tímido vai aparecer. E vem um vento, bem calmo, levanta a poeira e o sol lança aquela luz única, meio alaranjada, meio amarelada, meio avermelhada, meio Natascya. É uma luz, que esquenta, que envolve e que me tem feito falta.
Vem.
       .e
         .dar
               AMOR.


19 março 2012

Faltam meus amigos


Faltam meus amigos
as mãos dadas, as delicadas
o riso contido, as gargalhadas
as meias palavras
e os ditados francos

Faltam meus amigos
os passos longos e os curtos
os rostos suaves e os hirsutos
os grandes abraços
daqueles que afastam quebranto.

Faltam meus amigos
explêndidos, loucos, normais
os impacientes e os que escutam meus ais
Aqueles que tem por mim tamanho apreço.
Apreço de causar espanto
carinho que parece sem fim.


Por Alan Silva