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17 janeiro 2012

Cabeça de Vento


"E a cabeça foi passear.
Foi para um canto remoto de algum bosque pensar sobre as asas dos passarinhos.
Foi fazer diálogos imaginários.
- Como o dia está lindo.
- Concordo, meu bem.
Foi correr com algum animal na beira do rio.
Encontrou o pólen dentro de alguma flor. Sugou tudo e saio voando novamente.
Pensou em você, seja você quem for.
Imaginou futuros possíveis - e impossíveis.
Pensou em voar, pensou em chorar, pensou em evoluir.
Viu aplausos e vaias. Se atentou ao olhar, um pouco apaixonado, um pouco amargo.
Foi para um canto remoto no qual o medo mora. E lá era escuro.
Correu novamente, porque é só isso que se pode fazer. Correr dentro de si mesma.

E num estalo, a realidade."

26 outubro 2011

É tanta


Viu as fotos? As notícias? O ditador morto? O festival em São Paulo?
E o que esteve nos trending topics? A manchete do jornal? O álbum novo daquela cantora nova?
Não vi. Não li. Aonde? Nem quero.
Desatualizada. Desinformada. Como não? Aonde estava? Perdeu, foi ótimo.

É tanta informação, gente, novidade que...

Que nada.
Desligamos tudo, tiramos os tênis, corremos pela grama, abraçamos árvores, quebramos copos, batemos boca, fomos ao parque, discutimos Caetano.
A dor, o vazio, a rotina, a neura. Nada é o mesmo.
A sensibilidade é tamanha que há lágrimas nos olhos por esses momentos bonitos.
São dias e noites de sol, independentemente do astro que leva esse nome e fica acima de nossas cabeças queimar e emanar seu calor nesse dias e noites. Independentemente dele, serão quentes esses momentos. Porque calor é interno.
E nós temos uns aos outros.

Sobram notícias, sobram links, sobram manchetes, sobram músicas novas e afins porque há vida.
Só não sobra tempo.

"Quando é que a gente começou a ser tão feliz?"


29 setembro 2011

Embrace my heart and stay



- NÃO, EU NÃO TENHO QUE ACEITAR NADA!
- Calma, Letícia. Não grita comigo, por favor.

Parecia até que as nuvens, clima, deuses ou quem quer que seja responsável por fazer chover, parecia até que sabia, que sentia, que via todo o desentendimento daquelas duas almas. Chovia tanto que o céu era uma grande massa negra e uniforme.

- Desculpa. Eu... Tu sabes que não era minha intenção..
- Tudo bem. Eu se...
- Porque tu tens que ir mesmo?
- Lê, a gente já falou disso tanta e tantas vezes.
- Eu amo você, Ed.
- Eu amo você também, Lê. Bem, bem muito.
- Então pra que diabos tu vais me deixar aqui? Porque? Como assim tu...
- Uma vez um amigo meu me perguntou se abandonar tudo era um ato de coragem ou covardia. Na época, eu não soube responder. Mas eu tenho a resposta dele, hoje. Pra mim, se tu vais atrás do que tu queres, se é o que, nem que seja só na tua cabeça e tu estejas completamente errado, e só se foda, só se arrependa, mas se for o que tu sentes que é o certo a fazer, sentes que chegou a hora.. se for assim, é uma coragem gigantesca. Uma coragem que poucos tem. Porque tuas coisas, livros, dvds, roupas, isso aí você dá um jeito de levar. Mas a parte que r e a l m e n t e importa, as pessoas, essas vão ficar. E é isso que dói.
- Eu..
- Tu mesma tiveste o teu tempo. Deixou tudo, foi embora, tu, um lenço, um documento..
- Haha, engraçadinho. --' É diferente...
- A motivação é a mesma que a minha.
- E o resto? E todo mundo? E eu?
- Os amigos, eu digo AMIGOS, vão estar quando eu voltar. Você também, eu sei.
- Eu vou.
- Fica, vive e faz o que tu tiver vontade. É isso que eu vou estar fazendo.
- E em seis meses você volta...?
- Em seis meses eu volto.
- Nossos caminhos estão se separando, Ed.
- Estão, por hora. O que tu ainda não percebes é que o meu, apenas alguns quilômetros depois, faz uma curva brusca. E encontra o teu.


01 agosto 2011

Um ano de Julho


- Alô?
- Anna.
- Sempre me surpreendo quando você reconhece minha voz assim, de primeira.
- Que saudade...
- Júlia?
- Oi.
- Tô indo pra casa.
- Como assim?
- Não tô conseguindo segurar as pontas. Não dá mais. Tentei de tudo, juro. Álcool, drogas, filme, anestesia, caridade, piada, viagem...
- Não entendi.
- Eu tô indo.
- Você vem pra cá?
- Sim.
- E teu menino?
- Terminei.
- E teus pais?
- Ficarão.
- Teus cães?
- Também.
- Teus amigos?
- Eles não aguentam mais me ouvir falar de ti.
- Então você vem?
- Vou. Tá preocupada com a reação das pessoas?
- Um pouco.
- Quanto?
- Só um pouco. Mas, a verdade é que se eu for ligar pro que as pessoas pensam eu não faria a metade das coisas que gosto. Só quero viver minha vida em paz.
- É o que eu quero.
- Não acredito que você vai deixar tudo e vir. Minhas pernas estão tremendo..
- A vida longe de quem a gente ama não parece vida. Não tem sentido. Não há ânimo em lugar algum..
- E tudo remete aqueles poucos dias, ano passado.
- Isso mesmo.
- Então você vem?
- Sim.
- Quando?
- Janeiro.
- Até quando?
- Pra sempre.